O encanto do AIR SUPPLY em Porto Alegre – 05/05/2026 – Resenha do Show

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Graham Russell e Russell Hitchcock conheceram-se no dia 12 de maio de 1975, durante os ensaios para a produção do musical Jesus Christ Superstar na Austrália, onde atuaram como membros do coro. A partir daí, nascia o Air Supply e o que veio depois virou história!

O duo britânico-australiano, com uma vendagem calculada em mais de 100 milhões de discos em 50 anos de trajetória, retorna ao Brasil para 3 apresentações contemplando dessa vez, além de Porto Alegre em 05 de maio, o estado de Santa Catarina no dia 09 e São Paulo no dia 10. Acompanhados pelo norte-americano Doug Gild no baixo, o italiano Mirko Tessandori nos teclados e o tcheco Pavel Valdman na bateria, além do aporte de duas violoncelistas que performaram os segmentos que caberiam à ausente guitarra solo – os atuais instrumentistas de apoio de um conjunto que já contou com mais de 50 músicos diferentes ao longo dos anos – iniciaram a apresentação pontualmente às 21h com Sweet Dreams seguida por Even the Nights are Better, Just as I am e Every Woman in The World. O cover Here I am, e Chances do seu primeiro álbum de sucesso chamado Lost in Love,  aqueceram os corações para Goodbye, uma das músicas mais melancólicas da história do rock, com toda sua lamentação de fim de relacionamento. O trecho final dela diz assim:

“Simplesmente não consigo mais viver uma mentira,

Preferiria me machucar do que te fazer chorar,

Não sobrou nada para tentar,

Embora isso vá magoar a nós dois,

Não tem outro jeito a não ser dizer adeus …”

De fato, é um “corta pulsos” de primeiríssima qualidade e de tirar o fôlego. Desde 1993 quando fora lançada, muitas vezes já deve ter sido capaz de tirar lágrimas dos olhos não só daqueles que já tiveram o coração partido. Esta é, realmente, uma obra-prima do romantismo musical da inigualável década de 90 que jamais deve ser esquecida.

O violonista Graham Russell, que também é responsável por algumas partes vocais isoladas e que atua como segunda voz nos refrões, canhoto com suas guitarras e violões originalmente projetados para destros mas utilizada sem a inversão das cordas, detém uma maneira peculiar de exercer sua função como guitarrista. Assim como ele faz o músico brasileiro Edgard Scandurra da banda Ira! (outro exemplo é Dick Dale, o pai da surf music que gravou a trilha sonora do filme Pulp Fiction de 1994), onde as cordas mais graves passam a ser as de baixo e as mais agudas passam a ser as de cima no braço do instrumento, um diferencial charmoso mas com uma dificuldade a mais para a elaboração e execução dos fraseados.

I Can Wait Forever não ficou de fora, emendada com uma breve declamação do poema Invisible por Graham Russell e a bela canção Me and the River, cheia de significados temporais e afetivos para o músico. Enquanto isso, o “outro Russell” provavelmente descansava um pouco suas cordas vocais no camarim regado a uma xícara de chá.

Two Less Lonely People in The World e The One That You Loved, com o público já se levantando aos poucos das cadeiras, formaram o entreato para a chegada das músicas mais aguardadas da noite. Lost in Love, faixa que foi o seu primeiro grande triunfo comercial e que aparece na tracklist de 2 álbuns consecutivos (em 1979 e 1980) abriu a bloco final dos principais sucessos da banda. Após um breve solo de bateria, onde cartazes escritos em português eram mostrados pelo baterista ao mesmo tempo em que batia em seus tambores, chegou a hora de Making Love (Out of Nothing at All), que fora lançada na coletânea Greatest Hits em 1983 e que atingiu o segundo lugar na parada americana da Billboard Hot 100 por 3 semanas consecutivas, com sua linda introdução levada ao som das teclas do piano, sendo talvez a mais ovacionada e cantarolada pelo público.

Depois de uma pequena pausa, Without You, música gravada originalmente pelo grupo britânico Badfinger nos anos 70 que ganhou fama global na voz de Mariah Carey em 1994, ecoou na volta para o encore que contou com o grand finale de All Out of Love, uma entre várias que ouvimos exaustivamente aos longo dos anos na programação das rádios gaúchas Antena 1 e Continental, famosas pela difusão de músicas calmas e sentimentais. A última cota de saudosismo para encerrar o espetáculo com chave de ouro.

Mesmo sabendo que Lonely is the Night – minha canção favorita e também a da maioria dos brasileiros pela notoriedade que conquistou por fazer parte da trilha sonora da novela Barriga de Aluguel em 1990 – raramente é executada nos concertos da banda, vivi a expectiva de ouvi-la ao vivo … … o que não aconteceu, mesmo com os vários pedidos (inclusive o meu) nas redes sociais do grupo nas semanas que antecederam as apresentações no Brasil. Seria uma dose extra de pura nostalgia e celebração do rock oitentista. Quem sabe os 76 anos de idade de Mr. Hitchcock e a divergência com o estilo romântico mais suave pelo qual a banda é conhecida, sejam os fatores para um sucesso desse porte não ser apresentado aos fãs há algum tempo, já que sua execução é desafiadora por exigir um alcance vocal extremamente alto e potente.

Apesar dos pesares, a simpática dupla do Air Supply mostrou que ainda dispõe de um bom suprimento de ar nos pulmões para mais alguns aninhos de estrada, que é o que esperamos que aconteça.

Vida longa aos “Russells” do Air Supply !!

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Fisioterapeuta especializado em Medicina do Esporte, Músico (ex Duahlen) e Crítico Musical. Especialista em Heavy, Hard e no bom e velho Rock 'n' Roll. Sempre à disposição para uma boa conversa!! 👉 @ricodanielski 🤘