Nova temporada de Desbravando leva El Topador aos dois lados da fronteira Brasil–Argentina

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O Grupo El Topador inicia, em 27 de fevereiro, as gravações da 3ª temporada de Desbravando, websérie que vem buscando se consolidar, por meio de uma linguagem autoral e contemporânea, como uma espécie de “Canal Off Gaúcho” no YouTube. Ao longo de dez dias, até 6 de março, Antônio Costaguta percorrerá a fronteira entre o Brasil e a Argentina, atravessando cidades estratégicas do noroeste do Rio Grande do Sul – Porto Xavier, São Borja, Itaqui e Uruguaiana – e seus territórios correspondentes nas províncias argentinas de Misiones e Corrientes. Mais do que uma linha divisória, é o Rio Uruguai que assume o papel de protagonista dessa travessia: presença constante que conecta paisagens, histórias e modos de vida entre os dois países.
Fiel ao princípio que orienta o Desbravando desde sua criação, em 2020 — o de permitir que o território se revele por meio das vozes de quem o habita —, a nova temporada busca aprofundar o olhar sobre os diferentes modos de vida da fronteira, os contrastes entre suas paisagens e a formação de memórias que transitam entre o íntimo e o coletivo. A série investiga também expressões artísticas, gestos cotidianos e saberes que, embora enraizados em contextos locais, alcançam dimensão universal.
Como em todas as temporadas, o fogo permanece como elemento central da narrativa – elo simbólico que conecta personagens, histórias e identidade. Esta edição é viabilizada pela Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991), a Lei Federal de Incentivo à Cultura, com o patrocínio da Baldo.
Após a primeira temporada em solo gaúcho – lançada em 2020 e dedicada às regiões das Missões, Fronteira Oeste, Serra e Cânions — e uma segunda incursão de caráter internacional, filmada no Texas, em 2025, o Desbravando volta a sua atenção, mais uma vez, às fronteiras ao sul do Brasil.
Embora o recorte possa, à primeira vista, sugerir um enfoque regionalista, a proposta é justamente ampliar o entendimento do que se convenciona chamar de “identidade regional”.
Ao mergulhar em histórias locais, a série revela a complexidade, as contradições e a riqueza que compõem esse mosaico, desmontando visões simplificadas ou homogêneas de tradição. Ao mesmo tempo, os novos episódios ampliam essa reflexão para um campo ainda mais abrangente: o que significa ser brasileiro, argentino ou latino-americano. Longe de categorias fixas, essas identidades se apresentam como construções vivas, atravessadas por deslocamentos, trocas e convivências — sempre no plural, sempre em transformação.
ROTEIRO DAS GRAVAÇÕES (27/02 a 06/03) EPISÓDIO 1 — PORTO XAVIER
A temporada começa onde o rio parece ditar o ritmo do tempo e, por consequência, do modo de vida das pessoas em ambas as margens. Ao amanhecer, quando a balsa corta o Rio Uruguai ligando Porto Xavier, no Brasil, a San Javier, na Argentina, ela transporta mais do que passageiros: leva trabalho, sustento, vínculos e pertencimento. É nesse movimento – entre margens que se separam no mapa, mas se reconhecem no cotidiano – que o Desbravando ancora seu primeiro episódio.
A origem de Porto Xavier remonta às primieras décadas do século XVII, quando os jesuítas fundaram a Redução Jesuítica de São Francisco Xavier na margem direita do Rio Uruguai.  A travessia de Porto Xavier até San Javier (do lado argentino) revela a natureza paradoxal da fronteira: aquilo que, sob a lógica política, deveria separar, é justamente o que aproxima. Por essa razão, o episódio mergulha na vida ribeirinha e em sua principal atividade econômico-cultural, a pesca, mostrando a singularidade local existente entre o ritmo das águas e a vida cotidiana em ambas as margens do Rio Uruguai. Também por isso a gastronomia adquire caráter de ancestralidade: é o peixe no fogo simples e comido com a mão. É ritual, afeto, memória e história.
Neste percurso, El Topador visitará marcos que condensam a espiritualidade e o imaginário da fronteira, como o Cerro Pelado, a Cruz de pau-ferro e a Gruta de Todos os Santos, compondo um mosaico de paisagens, crenças populares e atos de peregrinação como fazem parte da memória desses lugares. Como em cada episódio da série, o desfecho se dá ao redor do fogo de chão — elemento central e linguagem própria do Desbravando —, onde ingredientes locais são transformados em alimento e narrativa, selando o encontro entre território, cultura e identidade.
EPISÓDIO 2 — SÃO BORJA
No segundo episódio, Desbravando chega a São Borja, uma das cidades mais antigas do Rio Grande do Sul e conhecida como “a terra dos presidentes”, berço de Getúlio Vargas e João Goulart. Ali, a paisagem revela uma dualidade estruturante: de um lado, a força econômica ancorada na produção de arroz; de outro, uma vida cultural surpreendentemente pulsante, que transforma a cidade em polo de criação, memória e expressão artística.
O episódio percorre ruas marcadas por esculturas, museus e espaços culturais ligados ao Festival da Barranca, reconhecido como formador de artistas de destaque na cena regional e nacional. Mais do que um evento, a “Barranca”, como é conhecido, é tradicionalmente consagrado como espaço de encontro, de intercâmbios de opiniões e de apresentação do que há de melhor nas vanguardas artísticas do estado.
No bloco final, o episódio mergulha em outro pilar fundamental da identidade gaúcha: o charque. O ritual cotidiano que envolve a elaboração do charque dará a tônica do encerramento do episódio, com um carreteiro no fogo de chão, celebrando a importância cultural e econômica de São Borja no panorama brasileiro.
EPISÓDIO 3 — ITAQUI
Itaqui aparecerá na série como um território-chave para compreender a formação histórica e simbólica do sul da América Latina. Pode-se dizer que ela é marcada pelos conflitos que moldaram o Rio Grande do Sul. O episódio relembrará que o território esteve no centro de seus momentos mais decisivos – tanto o conflito civil farroupilha, assim como as guerras do Prata e do Paraguai –, revelando um panorama identitário atravessado por disputas de poder.
Mas, o Desbravando não olha Itaqui apenas pelo prisma da guerra. O capítulo também evidenciará a cidade como terra de artistas, escritores e de pensadores. Em Itaqui, como em boa parte do Rio Grande do Sul, o campo é o espaço ideal de reflexões — vasto, introspectivo, dedicado a contemplação. O vento, a linha do horizonte que marca o Pampa e a cadência apresentada pela vida rural transmitem a narrativa mansa de uma cidade que, em tempos passados, foi palco de grandes conflitos. Pode-se dizer que, entre memoria, história e atualidade, Itaqui respira a calma brisa que – vinda de um longínquo passado hostil – já foi tormenta.
EPISÓDIO 4 — URUGUAIANA | Síntese da fronteira
No último episódio, o Desbravando mostrará Uruguaiana, a principal cidade fronteiriça do RS em termos urbano-populacional e econômicos. Trata-se de um dos principais eixos logísticos do Mercosul. Se caracteriza por ser um espaço de intensa circulação cultural, legado de sua posição geográfica e de seu estreito vínculo com a vizinha Paso de los Libres (Argentina).
Por isso, no episódio, El Topador percorrerá um dos principais símbolos da integração entre os dois países, a Ponte Internacional, além do centro urbano e das áreas de comércio da cidade, mostrando os principais traços constitutivos da identidade de Uruguaiana.
No campo cultural, o destaque vai para a Califórnia da Canção Nativa, celebrada desde 1971, que apresenta a música nativista como linguagem regional. Além disso, a relevância do reconhecido “Carnaval fora de época” para o Estado, sendo uma das potências criadoras da cidade. O episódio também evidenciará o harmônico vínculo criativo existente entre samba, chamamé, música nativista e influências argentinas e uruguaias, caldo de cultura que potencializa, ao longo do tempo, o surgimento de artistas gaúchos com características tão plurais entre si.
O QUE É DESBRAVANDO COM EL TOPADOR
Desbravando é uma websérie idealizada por Antônio Costaguta que percorre o mundo em busca de histórias, memórias e sabores capazes de revelar as múltiplas camadas de identidade de cada lugar — e, sempre que possível, suas conexões com a cultura gaúcha.
Em cada episódio, El Topador se conecta com personagens locais, compartilha saberes e prepara assados ao ar livre, reforçando os laços entre cultura, gastronomia e natureza. O gesto de assar deixa de ser apenas culinário para assumir dimensão ritual: é ao redor da brasa que as histórias emergem, que o tempo desacelera e que o território se revela por meio de quem o habita.
Ao longo de suas temporadas, Desbravando já percorreu regiões emblemáticas do Rio Grande do Sul, como os Cânions, a Serra, as Missões e a Fronteira Oeste, além de uma incursão internacional por quatro cidades do Texas (EUA) — Austin, Lockhart, San Antonio e Dallas–Fort Worth. Em todos esses contextos, o fogo permanece como eixo central da experiência, mediando encontros, conversas e memórias compartilhadas.
“Queremos celebrar o cotidiano, aquilo que, à primeira vista, parece simples, mas carrega significados profundos. É preciso contemplar as paisagens e entender os diferentes rituais dos assados campeiros, levando toda a energia e riqueza da cultura gaúcha para o nosso canal no YouTube”, antecipa Costaguta.
Mais do que uma série sobre gastronomia, Desbravando é um mergulho profundo e incessante em identidades: busca mostrar que o verdadeiro tempero do Rio Grande do Sul nasce das diferenças culturais que coabitam o Estado. A diversidade é, portanto, o principal patrimônio gaúcho, e é ao redor do fogo onde acontecem todos esses encontros.
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Vinícius Mitto é docente do SENAC RS e professor da Escola Técnica Estadual Irmão Pedro, em Porto Alegre. Graduado em Arquivologia pela UFRGS, com pós-graduação em Gestão em Arquivos pela UFSM e Formação Pedagógica pelo IFRS, possui mais de dez anos de experiência docente. Como Arquivista atua como consultor há mais de quinze anos em empresas privadas e no serviço público. Presidiu a entidade de classe da sua profissão, de 2022 a 2024. Atualmente é Conselheiro Fiscal do Clube do Professor Gaúcho e está na web há mais de uma década com seu site www.viniciusmitto.com.br por onde criou diversos projetos como o “Café da Manhã dos Influenciadores”, “Bloco Bah Guri” que arrastou mais 50 mil pessoas no carnaval de 2020 e o “Coletivo Bah Guri” que contou a história de dezenas de bairros de Porto Alegre no marco dos 250 anos da capital.