Em maio de 2018, as Tradições Doceiras de Pelotas e Antiga Pelotas foram oficialmente reconhecidas como patrimônio imaterial brasileiro. Este ato do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, valorizando os modos de fazer, saberes e a tradição oral passados de geração em geração de uma história que começou com a chegada dos portugueses no século XVIII.
Corta para no final da primeira metade do século XIX, quando ocorreu a expansão do charque em Pelotas, o que enriqueceu a cidade e a tornou um forte polo cultural. Os doces passaram a ser uma possibilidade, quando os navios que levavam o charque para o Nordeste e retornavam com açúcar em abundância. A partir daí, nos intervalos de teatros, dos bailes de gala e dos muitos eventos sociais da época, os doces passaram a estar sempre presentes.
O doce é português enquanto preparado em Portugal. Quando atraca na cidade gaúcha, passa a ser produzido por mãos negras que trabalham nas casas dos portugueses.
As receitas são passadas às cozinheiras africanas para que elas possam fazer os “doces de bandeja”, a maioria feito com gema de ovos como Camafeu, Ninho, Bem-Casado e Pastel de Santa Clara. Foram os escravos que ressignificaram o Quindim português, conhecido como Brisa do Lis, introduzindo uma camada de coco na receita, tornando-o um dos mais famosos do cardápio pelotense.
Já a produção dos doces de frutas para fins comerciais ocorreu no início do século XIX. Feitos em tachos de cobre e utilizando frutas nativas e com sementes vindas da Europa, principalmente as de clima temperado que se adaptaram muito à Metade Sul do Estado, como o pêssego, a laranja, a maçã e a videira, representam uma tradição de produção artesanal profundamente enraizada no cotidiano. São as mulheres doceiras que perpetuam as técnicas ancestrais, muitas vezes aprendidas com suas mães e avós, e responsáveis por manter vivas as práticas que envolvem a preparação dos ingredientes e a produção dos doces em condições que respeitam os métodos tradicionais.
Na década de 1980, a cidade já contava com diversas fábricas especializadas em doces cristalizados, compotas, marmeladas e goiabadas, mas foi a iniciativa da Cooperativa dos Doceiros de Pelotas e da Prefeitura local o alicerce para a primeira edição da Feira Nacional do Doce, em 1986. Porém, falta contar uma parte da história.
“Existe um silêncio que separa o centro da periferia, um descompasso no acesso às oportunidades de valorização. Entre as pressões de um mercado que busca a padronização e o rigor das certificações, muitas vezes o artesanal, aquele que nasce no meio rural ou nos pátios distantes, vê-se à margem, limitado por exigências que o capital impõe e a tradição desconhece. A certificação, que deveria proteger, acaba por excluir quem não possui recursos para se moldar a exigências burocráticas e financeiras, ignorando que o verdadeiro saber-fazer nasce da vida, não de padrões”, destaca Noris Leal, diretora do Museu do Doce da Universidade Federal de Pelotas e professora do Bacharelado em Museologia.
Foi com intuito de dar rosto a esse saber que as fotógrafas Andressa Santos e Gabriela Cunha se uniram para registrar em um fotolivro o cotidiano de seis mulheres doceiras e verdadeiras guardiãs desta herança: Claudete Lessa, Sônia Mara Farias, Marli Bandeira, Ligia Maria Ribeiro, Cibele Costa e Cíntia Costa. “As Mulheres Por Trás dos Doces” será lançado no dia 27 de maio, no Museu do Doce da UFPel localizado no centro histórico de Pelotas, no casarão nº 08 da Praça Coronel Pedro Osório.
“São essas mulheres que perpetuam as técnicas ancestrais, muitas vezes aprendidas com suas mães e avós, e responsáveis por manter vivas as práticas que envolvem a preparação dos ingredientes e a produção dos doces em condições que respeitam os métodos tradicionais. A prática de fazer doces de frutas se mantém viva nas cozinhas domésticas e pequenas fábricas, graças à resistência dessas mulheres que, apesar dos desafios impostos pela modernização e pela regulamentação sanitária, continuam a preservar e valorizar essa importante herança cultural. O fotolivro ‘As Mulheres por trás dos Doces’ documenta, por meio de uma perspectiva artística e sensível, às relações de afeto, tradição e resistência que permeiam o saber-fazer das doceiras de Pelotas e região. Um registro que vai além do ato de fazer doces, revelando o profundo vínculo entre identidade, memória e comunidade”, afirmam as fotógrafas.
Além do fotolivro, está em fase de finalização um documentário de 30 minutos, que será disponibilizado online e de forma gratuita, com depoimentos das doceiras participantes e de Noris Leal, diretora do Museu do Doce da Universidade Federal de Pelotas, proporcionando uma visão mais profunda de suas vidas, das regiões em que vivem e das tradições que preservam.
Histórias de tradição e resistência
Claudete Lessa é doceira quilombola nascida na zona rural de Canguçu, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Liderança no Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão, atua como coordenadora da Cozinha das Mais Velhas, um espaço de resistência cotidiana em que práticas alimentares se entrelaçam com saberes ancestrais, redes de cuidado e estratégias coletivas de enfrentamento à insegurança alimentar na cidade de Pelotas.
Sônia Mara Farias é outra potente liderança no Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão e atua com Claudete na coordenação da Cozinha das Mais Velhas. Como articuladora política, cozinheira e conselheira, estabelece relações de aprendizado profundo com os mais jovens, compartilhando saberes com generosidade, firmeza e alegria.
Marli Bandeira é doceira, natural de Canguçu, no extremo sul do Rio Grande do Sul, com longa trajetória de vida e trabalho em Pelotas. Liderança no Kilombo Urbano, atua como mediadora de conflitos e inspira formas cuidadosas e eficazes de comunicação entre as pessoas.
Lígia Maria Ribeiro foi uma das fundadoras da Cooperativa dos Doceiros de Pelotas, na década de 1980, que se tornou fundamental para a organização e o reconhecimento da produção local. Em um movimento coletivo, protagonizado majoritariamente por mulheres e articulado com o poder público, foram organizadas feiras em diferentes regiões do estado e do país. Esse esforço contribuiu diretamente para a consolidação da cidade como “Capital Nacional do Doce”, para o fortalecimento da Fenadoce como evento cultural e econômico e para a conquista de um espaço permanente de comercialização no centro da cidade, hoje conhecido como a Rua do Doce, localizada no calçadão de Pelotas.
Cibele Costa e Cíntia Costa são nora e neta, consecutivamente, de Seu Jordão e Dona Eva, fundadores da Doces Vô Jordão, uma empresa familiar com raízes artesanais fundada no final da década de 1960. Especializada em doces tradicionais, a marca utiliza frutas cultivadas pela própria família, destacando-se pela produção de passas de pêssego e doces cristalizados.
Projeto realizado com recursos do Edital SEDAC/PNAB RS n° 27/2024 – ARTES VISUAIS.
FICHA TÉCNICA
FOTOLIVRO
Fotógrafas: Andressa Santos e Gabriela Cunha
Doceiras: Cíntia Costa e Cibele Costa (Doces Vô Jordão), Claudete Lessa, Marli Bandeira e Sônia Mara Farias (Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão) e Lígia Maria Ribeiro (Cooperativa dos Doceiros de Pelotas)
Prefácio: Noris Mara P M Leal
Projeto Gráfico: Gabriela Cunha
Revelação e Digitalização: Lab:Lab Analógico – Laboratório Fotográfico
Roteiro de Audiodescrição: Débora Haupt
Consultoria de Audiodescrição: Luciane Molina
PROJETO – AS MULHERES POR TRÁS DOS DOCES
Produção Executiva: Gabriela Cunha e Gustavo Cunha (fuzzz lab)
Cinegrafistas: Andressa Santos e Gabriela Cunha
Edição de Vídeo: Gustavo Cunha
Técnico de Mixagem de Som: Gustavo Cunha
Trilha Sonora: Gustavo Silveira
Designer Gráfico: Gabriela Cunha
Social Media: Andressa Santos
Gestor de Tráfego Pago: Nicholas Sonvezzo
Assessoria de Imprensa: Roberta Amaral
Agradecimentos: Museu do Doce – UFPel, Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão, Cooperativa dos Doceiros de Pelotas e Doces Vô Jordão