Alice Caymmi canta Nana no Espaço 373

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Prestes a lançar álbum inédito com arranjos modernos e batida eletrônica aos clássicos do avô Dorival Caymmi, Alice homenageia a tia neste sábado em um show que promete emocionar o público

A única herdeira com autoridade vocal e emocional para perpetuar o legado de Nana Caymmi, Alice Caymmi desembarca em Porto Alegre para um show que é um grito de amor da sobrinha para a cantora, que faleceu em maio do ano passado, aos 84 anos. “Para Minha Tia Nana” ocorre neste sábado (11), no Espaço 373.

Este show especial vinha sendo feito por Alice desde 2018, mas adquiriu aura especial após a saída de cena da homenageada, o que conferiu ao espetáculo um involuntário caráter de tributo póstumo. Ela reinterpreta canções que conversam com a trajetória da tia, como “Resposta ao Tempo”, “Só Louco”, “Suave Veneno”, “Oração ao Tempo”, além dos boleros “Sabe de Mim” e “Se Queres Saber”. Cada música revela a profundidade e a beleza das composições, além de refletir a trajetória artística de Nana Caymmi.

Legado Caymmi em álbum

Elas estão aqui. “Dora”, “Anália”, “Gabriela”, a “Morena do Mar” — e, claro, a baiana com sua corrente de ouro e bata rendada — voltam à cena musical embaladas por novas texturas sonoras. As personagens que atravessam o cancioneiro de Dorival Caymmi (1914-2008) ganham uma roupagem contemporânea no álbum que Alice Caymmi lança no dia 30 de abril (aniversário de Dorival) pelo selo Daluz Música. Com doze faixas, “Caymmi” revisita um dos repertórios mais emblemáticos da música brasileira, mas passa longe de um tributo convencional ao mestre baiano. Em vez disso, propõe uma releitura que dialoga com passado e presente.

O resultado é um olhar renovado e atual para clássicos como “Maracangalha”, “Dia 2 de fevereiro”, “Dora”, “Canto do Obá”, “Suíte dos Pescadores”, “Morena do Mar” e “O que é que a baiana tem?”, entre outros. Alice incorpora reggae, hip hop, salsa e batidas eletrônicas ao repertório do avô, sem perder de vista a força original das composições. Os arranjos valorizam uma ancestralidade em permanente transformação.

Quando Alice nasceu, há 36 anos, a obra de Dorival Caymmi já era maré cheia na história da música brasileira – com cerca de 120 composições gravadas. Décadas depois, ela decidiu não apenas navegar nesse oceano, mas provocar novas correntes. O primeiro mergulho foi no último dia 13, com o lançamento do single “Modinha para Gabriela”, canção eternizada como tema da novela Gabriela (1975), adaptação do romance de Jorge Amado. Agora, o público pode conferir o álbum completo, com produção caprichada de Iuri Rio Branco.

“Atingi um ponto de maturidade ao entender a obra do meu avô como parte de mim, e não como um fardo. Ela caminha ao meu lado em vez de competir comigo. Por isso a ideia de gravar esse álbum. Olhando para minha história, percebi que era hora. A morte da minha tia Nana (Caymmi) mostrou que o momento tinha chegado. A obra do meu avô é eterna, mas não estava sendo eternizada. Chamei essa responsabilidade para mim”, explica Alice.

Faixas. A seleção das faixas evidencia tanto a dimensão íntima quanto a força narrativa da obra de Caymmi. “Dora” começa como bolero da era de ouro do rádio e vai ganhando novos contornos, com balanço reggae e batida eletrônica. A versão de Alice para “Canto de Obá” é das mais emocionantes no álbum ao cantar os versos Protege teu filho / Teu filho Caymmi / Dorival Obá Onikoyi / E Stella Caymmi / A mãe de Dori / De Nana e Danilo / Que é musa e mulher / Que é amor e amiga. “Essa faixa me tocou muito. Meu avô cita a família toda. Chama xangô para proteger a nossa linhagem. Isso me pega pelo coração”, diz ela.

Já “Maracangalha”, clássico de 1956, ganha ritmo de calipso e mantém o clima de festa em família, enquanto “Suíte de Pescadores” aparece em forma de salsa, com backing vocais da própria Alice. “Acalanto”, escrita originalmente como canção de ninar, surge mais rarefeita, com ênfase na interpretação vocal e em ambiências que ampliam seu caráter afetivo. Já “Adeus” e “Eu não tenho onde morar” acentuam o aspecto melancólico do repertório, deslocando-o para uma leitura mais urbana e contemporânea.

No eixo mais conhecido, “Modinha para Gabriela” e “Dia 2 de fevereiro” operam como pontos de ancoragem, mantendo reconhecimento imediato enquanto absorvem novas texturas rítmicas. Em “Morena do Mar” e “Promessa de Pescador”, o elemento marítimo — central na obra de Caymmi — é traduzido menos como paisagem e mais como fluxo. “O que é que a baiana tem?”, por sua vez, enfatiza ritmo e corporeidade, reposicionando a canção em diálogo com sonoridades contemporâneas sem perder sua força estrutural.

A base do disco está em canções que ajudaram a consolidar a identidade musical do país ao longo do século XX. Em vez de reproduzi-las, Alice opta por deslocá-las. O produtor Iuri Rio Branco, define o processo de trabalho ao lado da cantora. “O desafio foi trazer um olhar despretensioso para o repertório, já que Dorival é um dos compositores mais regravados da música brasileira. Procurei não me ater muito ao que já foi feito e seguir a minha assinatura musical, sempre com respeito. O resultado é um som direto ao ponto, com bastante batida e textura. O álbum carrega muito do que a Alice conta sobre o avô: um artista popular e conectado ao seu tempo. A diferença é que agora o tempo deste álbum é 2026”.

SERVIÇO
ALICE CAYMMI | Para Minha Tia Nana
Quando: 
11 de abril | Sábado | 21h
Onde: Espaço 373 (Rua Comendador Coruja, 373 – Floresta)
Ingressos: R$80 a R$240
 Ingressos antecipados:  https://tri.rs/event/bn/alice-caymmi-para-minha-tia-nana-dc1dcd

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Fisioterapeuta especializado em Medicina do Esporte, Músico (ex Duahlen) e Crítico Musical. Especialista em Heavy, Hard e no bom e velho Rock 'n' Roll. Sempre à disposição para uma boa conversa!! 👉 @ricodanielski 🤘