Living Colour em Porto Alegre – 26/02/26 – Resenha do Show

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Pioneiro em incorporar em seus trabalhos algumas das vertentes do rock’n’roll à evolução do jazz e do R&B para o funk americano (aquele consagrado principalmente por James Brown nos anos 70), além de uma forte pegada heavy metal notadamente pelos riffs produzidos pelo guitar hero Vernon Reid, o quarteto composto por Corey Glover nos vocais, Will Calhoun na bateria e Doug Wimbish no baixo, além do já citado Vernon Reid na guitarra, retorna ao Brasil para uma série de 4 shows em comemoração aos seus 40 anos de estrada, mostrando que continuam a conciliar muito bem todos esses elementos associados às temáticas sociopolíticas e raciais deveras presentes em suas composições. Com uma representatividade quase singular em ser constituído por músicos negros desde sua concepção, o grupo sempre foi reconhecido pelo virtuosismo de seus integrantes e pela intensidade de suas performances ao vivo. E foi realmente o que se pode conferir no Bar Opinião em Porto Alegre na noite de 26 de fevereiro de 2026.

Ao som da marcha imperial de John Williams, o time entrou em campo com uma tríade do álbum Stain de 1993; Leave it Alone, Ignorance is Bliss e Go Away, recheada com Middle Man do primeiro álbum, responsável por abrir a apresentação em tom de calmaria, com os motores ligados mas no estágio de aquecimento.

Após uma breve exibição instrumental, Funny Vibe, uma música também tranquila como o próprio nome diz, porém dotada de um solo de guitarra nervoso, preparou o terreno para mais uma de Stain, a swingada Bi, executada com maestria e arrancando alguns remexos de cintura da plateia mais próxima ao palco.

Hallelujah de Leonard Cohen, com sua sonoridade gospel cantada quase a cappella, transformou a casa de shows do bairro Cidade Baixa em uma igreja americana da década de 1930. Um belo momento!

Outra homenagem, desta vez à banda nova-iorquina Talking Heads que também agrega a matriz africana e o funk em suas composições, fez-se com a execução de Memories Can’t Wait de 1979, floreada por nuanças vocais e seguida em coro pelo público. Após a autoapresentação do vocalista Corey Glover e um solo de bateria acompanhado por “barulhinhos” sampleados, This is the Life, faixa de Time’s Up de 1990, fez-me dar o único bocejo da noite talvez pela sua monotonia e repetitividade rítmica. Mas enfim, não se vive só de frenesi.

Os motores aumentaram os giros com Pride, muito festejada assim como a consequente execução de um eletrofunk improvisado pelo grande baixista Doug Wimbish, e emendados por Glamour Boys, talvez a canção mais aguardada da festa e que em sua letra zomba  descaradamente da vida fácil dos mauricinhos endinheirados – a versão gringa da Burguesinha de Seu Jorge. Ela diz assim:

The glamour boys … never have no money

The glamour boys … wear the most expensive clothes

The glamour boys … are always at the party

Where the money comes from … heaven only knows

Love Rears its Ugly Head, um soulzaço cadenciado tratou de iniciar o bloco final que seguiu com Type, Time’s Up e a pesada Cult of Personality lá do primeiro disco do grupo, o Vivid de 1988, consagrada pelo riff explosivo da guitarra de Mr. Vernon Reid, que com seu bonezinho maroto e instrumento quase no peito, trouxe-me à cabeca as imagens dos guitarristas Tony MacAlpine e Tom Morello. Semelhanças à parte, Solace of You marcou a entrada do bis seguida por Should I Stay or Should I Go que, originalmente composta pelo The Clash em 1981, encerrou a apresentação fazendo referência ao punk como raiz fundadora de vários movimentos musicais que apareceram posteriormente.

O tempo passa. Algumas vertentes musicais desaparecem e outras nascem; mas mesmo depois de 40 anos o Living Colour continua provando que suas fusões criativas não desbotaram e suas cores continuam vivas !

 

 

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Fisioterapeuta especializado em Medicina do Esporte, Músico (ex Duahlen) e Crítico Musical. Especialista em Heavy, Hard e no bom e velho Rock 'n' Roll. Sempre à disposição para uma boa conversa!! 👉 @ricodanielski 🤘